As trilhas sonoras mais marcantes do Oscar 2026

Foto destacada: Reprodução / Vitrine Filmes / NEON

Em filmes indicados ao Oscar, a música foi usada como meio de contar histórias

Reportagem por Enzo Santos e Juliana Nacagawa

Em clima de Oscar, os filmes indicados à categoria principal de Melhor Filme ficaram em evidência, e um aspecto condutor de tantas narrativas intensas e profundas foi a trilha sonora.

Seja em O Agente Secreto, em que músicas nacionais, regionais e internacionais se misturam, ou em Hamnet, em que se prioriza o uso de instrumentos sinfônicos para a ambientação bucólica, é indispensável a sonoridade. É ela quem dá forma ao que precisa ser transmitido ao espectador, de forma a “materializar sensorialmente” o íntimo do subtexto narrativo, que pode ser sentido mas não exatamente explicado com diálogos ou monólogos.

A trilha sonora de um filme é o conjunto de sons explorados ao longo de uma obra. A música original, composta em exclusividade, dialoga com um estado “extradiegético”, ou seja, os personagens não têm acesso àquele som. Músicas já conhecidas pelo espectador, por sua vez, podem ser usadas como um instrumento que estimula uma conexão mais íntima entre o filme e o público. Os sons ambientes são os responsáveis por causar uma imersão cenográfica. O próprio silêncio é uma construção de um sentimento que se pretende causar em quem assiste.

Sobre o desenvolvimento de uma trilha sonora, Rafael Righini, maestro e compositor musical para audiovisual, destaca que “trazer as emoções para dentro de uma trilha é o grande desafio. Conseguir decodificar a musicalidade e a sonoridade do roteiro”.

O compositor Ludwig Göransson foi o responsável pela trilha original de Pecadores e de outras obras, como Oppenheimer (2023), Pantera Negra (2018) e Creed (2015) | Foto: Reprodução / Warner Bros. Pictures

No filme Pecadores a musicalidade não se limita ao seu simbolismo que reflete a cultura negra norte-americana dos anos 30. A trilha, ambientada no blues, também se torna responsável por auxiliar na narração da história assinada por Ryan Coogler, que propõe uma discussão sobre apropriação cultural em um contexto de forte segregação racial. O compositor Ludwig Göransson comentou a respeito do estigma sobre o blues naquela época: “esse tipo de música era considerada do diabo”.

Os compositores da trilha original de O Agente Secreto, Mateus Alves e Tomaz Alves de Souza, já trabalharam com o cineasta Kleber Mendonça Filho em outros de seus projetos — Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023) | Foto: Reprodução / Vitrine Filmes / NEON

Parte da contextualização histórica de O Agente Secreto se faz na escolha sincretista das músicas, e cada uma representa o sentimento evocado pela situação que está sendo vista. As músicas estrangeiras não “ofuscam” as brasileiras; a brasilidade é representada com regionalismos. Tensão, romantização, saudosismo e melancolia têm, em seu devido tempo, ao menos uma música para si. Tanto as letras quanto a atmosfera retratam principalmente a mudança gradativa no personagem de Wagner Moura.

O diretor Kleber Mendonça Filho, em entrevista para a Agência Brasil, disse que escreveu o roteiro escutando as duas músicas de Zé Ramalho e Lula Côrtes que toca em O Agente Secreto. “Elas são muito impactantes, quase como se o próprio vinil respirasse dentro do filme. (…) É um prazer muito grande poder usar as músicas que amo.”

Max Richter, compositor musical de Hamnet, já tem familiaridade com o silêncio em cena, como percebido em Ad Astra (2019) | Foto: Reprodução / Focus Features / Universal Pictures / Amblin Entertainment

Hamnet enriquece seu subtexto ao usar de um som mais campestre e do silêncio natural para envolver o espectador em uma ambientação ligada à natureza por meio da personagem de Jessie Buckley e de sua espiritualidade. O recurso acústico, que replica as onomatopeias da floresta — o piar do pássaro, o farfalhar das folhas ou o som do riacho — tem por objetivo criar uma atmosfera espacial de pura sinestesia, onde o ouvinte, mesmo que fora do cenário cinematográfico, se torna parte da temática florestal. Rafael Righini explica que “a trilha sonora é composta também por todo tipo de música que entra na obra, e também por todo o ruído, toda a paisagem sonora e por toda a voz — seja em diálogo ou monólogo”.

Para além dos sons e ruídos, o arranjo orquestral de Hamnet também é profundo em significado. Composta por Max Richter, hinos como “Of Orpheus” comunicam muito além do que notas emotivas; servem de alegoria ao mito de Orfeu e Eurídice — uma história que é fundamentada na arte da música. A história em cena então é reforçada com suavidade.

Além das músicas do Tears for Fears, a “playlist” de Marty Supreme é composta por New Order e Alphaville | Foto: Reprodução / Diamond Films / A24

Marty Supreme se passa nos anos 50 e possui uma seleção de músicas dos anos 80. O estranhamento que esse anacronismo poderia causar é substituído por recursos musicais que fazem sentido estarem em conjunto. A temática de “Change” e a letra de “Everybody Wants to Rule the World” (ambas do Tears for Fears) combinam com o arco do personagem de Timothée Chalamet, com a estética, e com a dinâmica eufórica da obra; “tem situação que às vezes a trilha está ali para dar movimento e ritmo à cena”, analisa Rafael Righini. Uma música auxilia a outra na construção narrativa do enredo baseado na ambição descontrolada.

Joachim Trier atribuiu a Hania Rani, uma principiante no ramo, a tarefa de concretizar a composição original de Valor Sentimental | Foto: Reprodução / Retrato Filmes / MUBI / NEON

A decisão de Valor Sentimental em começar sua narrativa com “Dancing Girl” indica uma intenção de usar a letra como uma narração prévia do que será contado no filme; essa música se constrói a partir das contradições e retrata o desencontro entre pessoas, além de explorar a relação entre arte e vida com uma leveza intimista. Logo antes de se encerrar a sequência inicial, outra música toma conta da narração. “Nobody Knows” usa do contexto religioso e desenvolve uma letra que nos transporta para um cenário de ausência familiar. Rafael Righini ressalta que a escolha dessas músicas não é por acaso. “A música não é um enfeite, é um elemento narrativo. A música atinge o nosso subliminar.”

Jonny Greenwood, compositor de Uma Batalha Após a Outra, já trabalhou antes com Paul Thomas Anderson. Ele e o cineasta já colaboraram em cinco obras — Sangue Negro (2007), O Mestre (2012), Vício Inerente (2014), Trama Fantasma (2017) e Licorice Pizza (2021) | Foto: Divulgação / Warner Bros. Pictures

Enquanto as músicas selecionadas em Uma Batalha Após a Outra são marcadas pela diversidade étnico-racial, que se relaciona diretamente com a base do filme, as composições originais elevam o clima. Os arranjos são usados como apelo para a aflição dos conflitos, que resultam em perseguições.

O compositor Jerskin Fendrix e o diretor de Bugonia já trabalharam juntos em outros dois filmes, Pobres Criaturas (2023) e Tipos de Gentileza (2024) — em ambas colaborações ficou marcada a presença de um aspecto catártico | Foto: Reprodução / Universal Pictures / Focus Features

Bugonia usa da sutileza de sua trilha sonora para dar relevância a momentos pontuais da história. A escassez do som é estratégica, de maneira a enaltecer o clímax com sinfonias orquestrais e exageradas. As músicas diegéticas, ou seja, ouvidas pelo público e pelos personagens simultaneamente, são de Chappell Roan (“Good Luck, Babe!”) e do Green Day (“Basket Case”), e agregam ao humor ácido do diretor Yorgos Lanthimos.

Abelhas, porão, espaçonave e “Emily-careca” foram as únicas palavras compartilhadas com Jerskin Fendrix sobre sua pré-produção sonora. “Pensei que desta vez seria mais interessante se eu fosse além, e não deixei que ele (Fendrix) lesse nenhuma parte do roteiro. Então ele não sabia sobre o que o filme era”, comentou Lanthimos sobre o processo criativo.

Apesar da forte presença musical nos filmes de 2025, não é de agora que a trilha sonora é utilizada como uma fonte rica em ajudar a contar histórias no cinema. Metrópolis (1927), Psicose (1960) e Tubarão (1975) são alguns exemplos de como já se demonstrava o cuidado em contar histórias inteiramente audiovisuais bem antes do momento atual.

Desde o cinema mudo, ainda predominante no final da década de 1920, a trilha já esboçava grande importância para a narrativa. É no cenário mudo e não verbal que o protagonismo musical se instaura. Como forma de lidar com o silêncio dos personagens, a expressão musical era utilizada como um método de comunicação.

A trilha orquestral do clássico do Expressionismo Alemão Nosferatu foi composta por Hans Erdmann | Foto: Reprodução/Nosferatu

Nosferatu, de 1922, é exemplo de que desde os primórdios do cinema já se tinha uma preocupação em tornar essa arte o mais sensorial possível. Apesar de se tratar de um filme mudo, a trilha sonora espalhafatosa é um dos principais elementos utilizados pelo cineasta alemão F. W. Murnau para desenvolver a imponência do vampiro e a onipresença da obscuridade temática. Arranjos sinfônicos góticos complementam o sentimento de pavor do espectador diante da imagem do monstro. É devido a essa construção que pouco se nota a mudez dos personagens.

O título “mudo”, portanto, falava mais sobre uma limitação técnica das falas do que de fato sobre silêncio.

Imagem e som são independentes e bastam a si mesmos, porém, quando combinados em um conjunto maior eles acabam tendo um efeito singular e novo. Quando entrelaçados, visual e áudio exercem influência de sentido um sobre o outro, e se estabelece uma ressignificação. Rafael Righini complementa que “quando se faz o casamento entre imagem e som, um elemento potencializa o outro”.