(Foto: Ruth Bernal / John Berg / Columbia Records)
Reportagem por Enzo Santos
Bob Dylan completa 85 anos de vida, e nesse mesmo ano de 2026 seu emblemático álbum Desire completa 50 anos de lançamento.
Um dos principais motivos que inspirou Bob Dylan a decidir compor para um novo disco entre 1975 e 1976 foi um caso de racismo e injustiça social. Essa é a história do “furacão”.
“Here comes the story of the hurricane”
O boxeador negro Rubin Carter era conhecido como “Hurricane” (“Furacão”) por ser forte e imparável no ringue. Sua carreira começou em 1961 após um passado conturbado, até que em 1966 Hurricane foi acusado de homicídio.
Na madrugada de 17 de junho de 1966 quatro homens foram baleados num bar em Paterson, Nova Jersey — um bartender e três clientes. O bartender e um cliente morreram na hora, o segundo cliente morreu um mês depois devido aos ferimentos, e o terceiro cliente sobreviveu, mas ficou cego de um olho. Quem sobreviveu disse que dois homens negros haviam cometido o crime.
Minutos depois dos assassinatos a polícia prendeu preventivamente Rubin Carter e seu amigo John Artis, que, apesar de estarem em um carro semelhante mas não igual ao descrito pelas testemunhas, estavam em outro local na hora do crime.
Hurricane foi liberado mas poucos meses depois ele e John Artis são presos definitivamente. Testemunhos contraditórios, alegações confusas e corrupção de policiais são alguns dos absurdos que formaram uma “justiça” injusta.
“Em Paterson, é assim que as coisas são
Se você é negro, melhor você não ir à rua
A não ser que você queira enfrentar o calor”
Ao ler a autobiografia de Rubin Carter, The Sixteenth Round, publicada no ano de 1974, Bob Dylan se revoltou com o caso e visitou o lutador na prisão.
O músico rapidamente se aproximou de Hurricane e deixou a criatividade tomar conta: “fui anotando algumas coisas porque eu não sabia de alguns detalhes, e pensei que talvez eu pudesse juntar tudo e transformar em uma música.”
A canção é grandiosa, e não à toa tem mais de 8 minutos de duração. A maneira com a qual a narração é conduzida faz parecer como se um roteiro estivesse sendo proclamado. (“Tiros de pistola ecoam à noite no bar; Entra Patty Valentine do andar superior”)
O co-compositor da música Jacques Levy explicou que escolheu essa maneira de contar a história porque ele “queria narrar quase como se fosse um advogado apresentando a história ao júri”.
As composições
Após a boa recepção de seu disco Blood on the Tracks, Bob Dylan conheceu Jacques Levy — um diretor de teatro — por meio de Roger McGuinn, guitarrista da banda folk The Byrds. A relação entre Dylan e Levy teve rapidamente uma boa química, e isso acabou se estendendo para o âmbito artístico.
Bob então se encontrou diversas vezes com o diretor de teatro para compor em conjunto, como uma colaboração lírica entre os dois. “Acho que ele gostava do fato de eu saber contar uma história”, lembra Jacques Levy. Usando de sua experiência teatral, Levy recheava as letras com uma estrutura narrativa eficiente e com um simbolismo que se referia à complexidade humana e ao convívio humano — isso somado à já estabelecida genialidade poética do músico-poeta.
“Com o Jacques Levy, ele [Dylan] ganhou mais elementos visuais de narração, como se fosse um enredo de um filme”, pontua o jornalista cultural Pedro Couto.
Jacques Levy afirmou que o processo de composição a princípio “não era nada preparado”, com encontros pautados na inspiração; Bob tocava alguns acordes com um tom de ciganismo e Levy, em seguida, escrevia palavras, frases ou algumas narrações, junto com lirismos que Dylan ia tendo ideia na hora. Em certo ponto os dois passaram cerca de três semanas em uma casa afastada em Long Island, Nova York, para se dedicarem ao processo de escrita.
Desire se estabeleceu a partir dessa colaboração entre os dois artistas. As únicas canções que não foram compostas pela dupla Dylan-Levy são One More Cup of Coffee e Sara, que foram escritas apenas pelo cantor.
Com seu novo estilo de composições, ainda faltava alguém que conseguisse concentrar e exprimir a atmosfera sonora das narrativas. O compositor teria que encontrar, por obra do acaso, uma artista extraordinária e sensível.
O ciganismo
Bob Dylan estava dirigindo seu carro em Greenwich Village quando reparou em uma jovem caminhando na rua com um violino na mão. “Ele parou o carro e perguntou se eu sabia tocar”, lembra Scarlet Rivera, “acabamos conversando e ele disse que precisava me escutar tocando”. Logo Scarlet Rivera se tornaria a violinista oficial do novo álbum.
“Se eu tivesse atravessado a rua segundos antes, eu nunca teria conhecido Bob. Ele é bem intuitivo em relação às pessoas, e algo o fez parar.” — Scarlet Rivera
Scarlet Rivera, com seus cabelos ruivos, longos e volumosos, e com um olhar enigmático, parecia um espectro cigano. Sua presença moldava a concepção de uma figura misteriosa. A musicalidade da violinista refletiu na ambientação cigana de Desire.
“É difícil de imaginar o som de Desire sem o violino de Scarlet [Rivera] e é difícil de imaginar o visual do palco da turnê sem a presença dela, vestindo uma roupa mística e encarando Bob Dylan.” — Ray Padgett, jornalista
A dinâmica da violinista na turnê de 75 causava arrepios. Ao mesmo tempo que intrigava, era impossível decifrar o que se passava dentro dela. Quanto à atuação sonora de Rivera, Pedro Couto comenta que “esses floreios que ela faz vão dando essa textura mais exótica”.
As gravações e as músicas
As gravações começaram em 14 de julho de 1975 e se estenderam por outros quatro dias — de 28 a 31 de julho. Por último houve uma regravação de Hurricane em outubro.
Emmylou Harris, a vocal de apoio do disco, lembra que o cantor não queria apresentar a letra antes das gravações: “eu simplesmente observava a boca dele e o que ele estava cantando. É daí que vem todo o murmurado do álbum.”
As faixas seguem a seguinte ordem:
A faixa de abertura do álbum é uma das mais conhecidas da carreira de Dylan. Com nuances e ritmos que a fazem parecer uma road song, a canção é crua e agitada. A narrativa é sobre Rubin Carter, mas denuncia o racismo estrutural como um todo.
Isis é a deusa da magia, cura, maternidade e fertilidade na mitologia egípcia.
Segundo Bob, esse foi o primeiro fruto da colaboração Dylan-Levy. “Eu tinha fragmentos de algumas canções nas quais eu estava trabalhando e toquei para ele [Jacques Levy] no piano. Ele as levou para outro ponto, eu as levei para outro ponto, ele foi mais longe e eu fui mais longe, e acabou que tínhamos a primeira música [Isis] pronta.”
Jacques Levy comentou que a vibração da cultura cigana tinha mexido com Dylan, e que o cantor disse para ele que “havia voltado há pouco tempo da Espanha ou do sul da França, e que ele havia se envolvido com uns ciganos”.
Apesar do eu-lírico se referir a uma suposta “irmã”, o tema aqui não é a irmandade de sangue. É a identificação entre diferentes almas que deveriam estar em paz e que são filhos de um mesmo pai — seja divino, celestial, o que for.
É sobre um mafioso nova-iorquino real chamado Joe Gallo. É a faixa com mais duração do álbum, chegando aos 11 minutos.
Bob Dylan visitou Durango, no México, durante gravações do filme Pat Garrett & Billy the Kid em 1973.
Inspirada no livro Vitória, de Joseph Conrad.
Essa é a música que faz a referência mais explícita à esposa de Bob Dylan, Sara Lownds. O casamento entre os dois estava em um momento delicado, e a canção (e o disco como um todo) foi um meio de homenagem e de reconciliação temporária.
Praticamente todas as músicas do disco foram primeiramente apresentadas ao público em performances da turnê de 75. Apenas Hurricane lançou antes como single, por exigência de Dylan.
A turnê do álbum
No início de 1974 Bob Dylan “voltou à estrada” após uma pausa de quase 8 anos em seus shows. Algumas apresentações dessa turnê foram gravadas no LP Before the Flood. O cantor havia se apresentado ao vivo pela última vez em 1966, pouco antes de um acidente de moto que o forçou a ficar um tempo recluso.

Os anos de reclusão, de 67 a 73, foram um momento de grande imprevisibilidade na popularidade do cantor-compositor. Enquanto alguns discos tiveram um bom desempenho, como Nashville Skyline (1969) e John Wesley Harding (1967), outros não tiveram a mesma sorte — como Self Portrait (1970) (Foto: Elliott Landy / Columbia Records)
No entanto, o retorno aos palcos com a The Band foi desgastante e um tanto quanto “espetacular de mais” para o gosto de Bob Dylan. “Aquilo o saturava”, pontua Pedro Couto. “Ele estava tendo que interpretar o ‘Dylan rockeiro’, era um personagem, uma coisa meio falsa.”
Bob queria se apresentar de uma forma mais verdadeira, com seu coração e sua alma. Surge então a ideia de sair chamando diversos músicos para fazerem shows intimistas nos Estados Unidos, em uma espécie de peregrinação musical. Surge a ideia da turnê Rolling Thunder Revue.
Para Jacques Levy, as novas músicas “deram a Dylan a chance de atuar [no palco]”.
A Rolling Thunder Revue parecia um circo itinerante imprevisível. Alternava quase que a formação inteira conforme se deslocavam. A divulgação dos shows foi sendo feita em cima da hora, as apresentações eram em cidades pequenas e em lugares mais intimistas; foram poucas as vezes que a Rolling Thunder se apresentou em estádios, como no show de encerramento.
As performances da banda e principalmente a do cantor foram marcadas pela visualidade intensa. Os músicos ficavam sobre um carpete antigo. O palco era geralmente pequeno e com cortinas. Bob Dylan gesticulava com inquietude, como se fosse um verdadeiro trovador ou algum tipo de poeta um tanto quanto desesperado. Dylan pintava seu rosto de branco, e às vezes a sua alma gêmea — Joan Baez — o acompanhava na máscara.
Bob Dylan queria gravar um filme experimental, que misturasse realidade e ficção em uma bagunça narrativa; é daí que vem boa parte das decisões criativas de encenação e figurinos exagerados. Dylan contratou alguns cinegrafistas que pudessem filmar cenas no palco e nos bastidores. O filme, intitulado Renaldo e Clara, acabou sendo um fracasso.
Fizeram parte da Rolling Thunder Revue: Joan Baez, Patti Smith, Scarlet Rivera, Joni Mitchell, Allen Ginsberg, Ramblin´ Jack Elliott, Bob Neuwirth, David Mansfield, entre outros.
Pouco depois do alvoroço da “primeira parte” da Rolling Thunder Revue, o mítico disco Desire foi lançado no dia 5 de janeiro de 1976.
O último show, intitulado “Night of the Hurricane”, foi realizado com o objetivo de arrecadar fundos para bancar a defesa de Rubin Carter no processo jurídico.
Rubin Carter foi solto somente em 1985, com a retirada do processo e a anulação da pena. Foram 19 anos preso injustamente.
