Imagem: Divulgação/O Agente Secreto
A estatueta dourada é símbolo da pura arte ou é apenas um carimbo de aprovação?
Reportagem por Enzo Santos
Edição por Gustavo Ávila
Não foi desta vez. Diferente do ano passado, o indicado brasileiro ao Oscar 2026 deixou a cerimônia de mãos abanando, mas o cinema do Brasil definitivamente não perdeu. Toda a comoção causada por O Agente Secreto superou o “limite” do idioma e conectou diferentes povos em uma mesma narrativa.
Mesmo após esse desfecho, uma questão permanece: a qualidade do cinema brasileiro se limita a premiações internacionais? E a visibilidade que elas promovem: se estende a outras obras nacionais?
Lucas Tinoco, crítico de cinema, comenta que a grande quantidade de espectadores que O Agente Secreto alcançou não significa necessariamente um avanço para o cinema como um todo. “As pessoas caem muito no quesito da moda: do que está sendo discutido, no que está sendo falado. O cinema brasileiro no geral é a antítese dessa moda. Os filmes nacionais nunca seguem ‘a regra’, eles sempre tentam subverter o que está sendo discutido.”
A questão é perpetuar um engajamento de longa data entre o povo e o seu próprio cinema, com diálogos que não se limitem a uma competição estilo “Copa do Mundo” e que vão além das noites de gala.
Mauro Garcia, presidente executivo da BRAVI (Brasil Audiovisual Independente), explica que isso só é possível quando se alcança a raiz do problema: “A formação de público tem que começar desde cedo, para que se forme um indivíduo acostumado a assistir filmes brasileiros”.
Para além de norte-americanos e europeus descobrindo nosso cinema, somos nós, brasileiros, quem deveríamos nos aprofundar nesta arte plural. É por meio do compartilhamento de histórias que alimentamos nosso sentimento de pertencimento e de identidade. Limitar isso a uma competição ou a um julgamento de valor é banalizar a magia de contar e recontar histórias audiovisuais.
Reconhecimento é ótimo e fomenta uma popularidade que pode abrir as portas para a diversidade global, mas não se deve validar qualquer obra de arte apenas a partir dessa perspectiva deslocada, que não se identifica.
Uma população sem um imaginário próprio, que não volta seus olhos para si mesma, se vê obrigada a tentar se encaixar em uma cultura “não espontânea” para ela. Não limitar nossa visão sobre o panorama do cinema brasileiro é essencial — tanto na História do cinema nacional quanto em sua contemporaneidade.
“A gente não ganhar o Oscar pode mostrar que temos algo único: uma identidade diferente, uma identidade mais própria”
Lucas Tinoco
A campanha pré Oscar
Exibido pela primeira vez em maio de 2025, no Festival de Cannes, o longa do diretor Kleber Mendonça Filho teve ótima recepção, conquistando mais de 50 prêmios internacionais.





Esteve presente nos principais festivais, como o de Berlim e o de Toronto, e em entrevistas a veículos de imprensa dos mais consagrados. Dessa forma, a publicidade e o marketing do longa, um dos fatores que levaram à presença em quatro categorias do Oscar, foi tomando forma.
Entre 19 a 30 de janeiro de 2026 (11 dias), o número de salas que exibiram o filme brasileiro nos EUA mais que dobrou, passando de 133 para 312, segundo dados da Box Office Mojo.
A NEON, mesma distribuidora de Anora e Parasita, que levaram a estatueta em anos anteriores pela categoria Melhor Filme, comprou os direitos de distribuição internacional do brasileiro.
O impulso econômico
Apesar do resultado negativo na noite mais esperada de Hollywood, questões mercadológicas e de consumo relacionadas a O Agente Secreto apontam para o cinema brasileiro como um todo – inclusive como indústria.
O setor do audiovisual do Brasil, que empregou diretamente 120 mil pessoas em 2024, segundo o IBGE, ganha ainda mais força com a projeção internacional em festivais e cerimônias estrangeiros.
Com mais pessoas de diferentes culturas consumindo um produto cultural brasileiro, a relevância de produções audiovisuais feitas no Brasil é reforçada no resto do mundo, o que atrai mais investimentos e parcerias com produtoras e distribuidoras internacionais.
Mauro Garcia explica que “essas premiações trazem maior visibilidade dentro do mercado global e trazem a exigência da competitividade interna e global”.
